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HPV: entendendo mais sobre a doença

HPV: entendendo mais sobre a doença
Imagem meramente ilustrativa (Banco de imagens: Shutterstock)

HPV, sigla em inglês que quer dizer “Papiloma vírus humano”, é o nome de um vírus que infecta a pele, causando verrugas ou até mesmo lesões que podem acarretar em alguns tipos de câncer, tais como o câncer de colo de útero, garganta ou câncer de canal anal. Existem muitas cepas de vírus da família do HPV, sendo algumas mais virulentas outras menos capazes de causar lesões em distintas partes do corpo.

O HPV é tradicionalmente transmitido através do contato da mucosa com outra pele, normalmente em relações sexuais desprotegidas. Pode também ser transmitido de forma vertical, ou seja, de mãe para filho na hora do parto. Assim, o HPV é uma das mais recorrentes doenças sexualmente transmissíveis (DST’s) entre os humanos e muito prevalente na espécie humana.

Conhecendo os sintomas

O HPV é passado majoritariamente através das relações sexuais nas quais não há o uso de preservativo. Em alguns casos mais raros, o compartilhamento de objetos pessoais como toalhas ou roupas íntimas podem transmitir o vírus, uma vez que diferente de outras doenças sexualmente transmissíveis, não há a necessidade da troca de fluídos corporais para que a doença seja transmitida.

O HPV é altamente capaz de se disseminar. Muitas vezes o simples contato pele-a-pele, ou pelo contato das genitálias masculina e feminina, pode ocorrer a transmissão. A melhor forma de preveni-lo é utilizando camisinha em todas as relações sexuais. Importante lembrar que não só a relação sexual vaginal, como a anal e a oral são também capazes de transmitir o HPV de forma que em todos os tipos de relação sexual deve-se utilizar preservativo para proteção de disseminação do vírus.

Os fatores de risco para transmissão, assim como os fatores de risco que facilitam que a infecção viral se torne doença oncológica são elencados a seguir:

  • Sexo (anal, oral ou vaginal) desprotegido;
  • Múltiplos parceiros sexuais;
  • Falta de aderência a exames de rotina;
  • Susceptibilidade do sistema imunológico a infecções;
  • Presença de outras doenças sexualmente transmissíveis, como herpes e clamídia.

Nem sempre o HPV, ao se manifestar clinicamente, se torna um câncer. Na verdade, a absoluta maioria das vezes a expressão clínica da infecção pelo HPV se dá pelo aparecimento de lesões verrucosas ou ulceradas (“feridinhas”) na pele da região íntima. Essas lesões em forma de verruga são indolores e de diversos tamanhos e formas. Comumente referidos como condilomas pelos médicos, o aparecimento de lesões grandes, coalescentes e múltiplas, contrastando com aparecimento de lesões pequenas e frustras, nos dá uma idéia da força da infecção e da resposta imunológica do paciente. O mesmo ocorre quando as lesões são ulcerosas. Existem outros fatores de risco que podem favorecer a esse desenvolvimento de uma doença mais grave, eventualmente ao câncer, tais como:

  • Tabagismo;
  • Gestações recorrentes;
  • Estar contaminado pelo vírus HIV;
  • Uso de pílula anticoncepcional de alta dosagem hormonal por tempo duradouro;
  • Tratamentos médicos como quimioterapia ou radioterapia.

Identificando o HPV através dos sintomas

Exames de rotina são necessários, uma vez que a infecção pelo vírus HPV costuma não aparecer com sintomas na grande maioria dos casos. É comum que o vírus provoque o que chamamos de infecção latente, ou seja, ele fica “hibernando” no seu corpo por um período longo de tempo, e aparece como manifestação clínica em períodos de estresse, quando a imunidade está mais afetada, ou em períodos aleatórios. Pessoas com imunidade menos eficiente, com problemas no sistema imunológico ou em período de gestação, são as que costumam ver o HPV se manifestar com maior facilidade.

Quando o sistema imunológico está enfraquecido a multiplicação dos vírus é facilitada, pois nossas células de defesa estão menos ativas e menos vigilantes. São períodos como esses em que vemos o aparecimento das lesões do HPV. A maioria das infecções, principalmente quando em adolescentes e jovens, possui resolução espontânea feita pelo próprio organismo, em um período que costuma durar até dois anos. Nesse período, surtos de lesões costumam acontecer em se auto-resolver. É nesse período de descobrimento da vida sexual e de descobrimento da sexualidade que o uso de preservativo precisa ser mais eficiente, pois o contágio pode acontecer mesmo quando não há lesão visível a olho nu.

As primeiras manifestações da infecção podem aparecer tão cedo quanto entre 2 e 8 meses de idade, como também pode demorar até os 20-30 anos de idade para o aparecimento de algum sinal da infecção pelo corpo. O aspecto das lesões é sempre parecido com o explicado acima e, assim como outras DST’s, não precisa ser vista para ser transmitida.

As lesões podem ser divididas em clínicas ou subclínicas.

Lesões clínicas

São perceptíveis a olho nu: surgem como verrugas na região genital ou anal, popularmente conhecidas como “crista de galo”. Podem surgir sozinhas ou múltiplas, com tamanhos variados. Apesar de majoritariamente assintomáticas, podem causar coceira e irritação.

Essas verrugas, em geral, são provocadas por tipos de HPV com menores chances de desenvolver lesões cancerosas. Essas lesões também podem se manifestar na garganta, boca, pés e mãos, a depender do contato sexual entre os indivíduos e contagio. No entanto, as principais regiões afetadas costumam ser a glande do pênis e a vulva, a vagina e colo do útero logo em seguida.

Lesões subclínicas

São lesões não perceptíveis a olho nu. Podem ter localização nas mesmas regiões das lesões clínicas, mas não apresentam sintomas. As lesões subclínicas podem ser provocadas por tipos de HPV tanto de baixo quanto de alto risco para desenvolvimento de câncer. São identificadas por testes específicos, como o teste de Schiller, no qual uma substancia específica – o Lugol – é utilizado para corar áreas da mucosa do colo uterino contaminadas pelo HPV. As células contaminadas por HPV mudam suas características bioquímicas e se tornam incolores à solução de Lugol. O profissional de saúde então enxerga a área onde deverá retirar um pedaço – fazer a biópsia – para estudar a presença do HPV ou desenvolvimento de câncer. A colposcopia é o exame indicado para esse tipo de rastreio.

Podem ser encontradas na vulva, vagina, colo do útero, ânus, glândula do pênis, bolsa escrotal e região pubiana, assim como as lesões clínicas. A mucosa nasal, oral e laríngea são outras regiões, menos comuns, onde podem se manifestar as lesões. Nos últimos anos estamos vendo uma mudança de padrão epidemiológico em câncer de mucosa orofaríngea, também relacionado ao HPV. Antes o tabagismo apresentava-se como principal fator de risco para aparecimento de câncer de cavidade orofaríngea, hoje vemos uma diminuição no número de casos relacionados ao tabagismo e um crescimento no numero de casos relacionados ao HPV em indivíduos jovens. Provavelmente essa mudança decorre do fato do tabagismo estar diminuindo sua prevalência no mundo, e o sexo oral desprotegido aumentando sua frequência.

Também são incomuns, mas podem ser registrados, os casos de crianças que foram infectadas no momento do parto: estas podem registrar verrugas nas cordas vocais e na laringe. O acompanhamento médico durante a gestação é imprescindível para proteger a criança da transmissão do HPV. Como o recém-nascido ainda tem o sistema imunológico imaturo, as lesões decorrentes da transmissão vertical costumam ser muito grandes e bastante sintomáticas. Seu tratamento é complicado em vista da fragilidade dos recém natos e da infecção mais agressiva.

A importância da prevenção

O câncer de colo de útero tem sido objeto de luta da comunidade científica há pouco mais de 100 anos. Antes uma doença incurável e altamente mórbida, levava os pacientes a sangramentos e infecções das áreas íntimas que afligiam dor e vergonha aos seus portadores.

No início do século passado Schauta e Wertein demonstraram a curabilidade do câncer de colo de útero por meio da cirurgia (histerectomia radical). Praticamente ao mesmo tempo, Dominici (1911) descobriu o princípio da infiltração do radium, que mais tarde seria utilizado com sucesso para a cura desse tipo de neoplasia.

Em 1941 Papanicolaou e Traut introduziram a citologia do raspado do colo uterino como ferramenta diagnóstica do tumor oriundo do HPV. Harald zur Hausen, ganhador do prêmio Nobel de Medicina e fisiologia de 2008, elucidou o mecanismo pelo qual a infecção viral leva ao desenvolvimento de câncer.

No início desse século, o desenvolvimento de vacina contra os principais tipos de HPV que levam ao aparecimento do câncer mudou a história natural do câncer de colo uterino e nos dá o privilégio de sermos a primeira geração a viver em um mundo onde pode não haver novos casos de câncer de colo de útero.

São frequentes as campanhas de vacinação contra o HPV. O Ministério da Saúde tornou a vacina obrigatória e gratuitamente distribuída pelo SUS, sendo indicada para:

  • Meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos;
  • Pessoas portadoras de HIV;
  • Pessoas transplantadas na faixa etária de 9 a 26 anos.

O diagnóstico do HPV se dá através de exames clínicos e laboratoriais. As lesões clínicas podem ser descobertas através de exame clínico feito por médicos de diferentes especialidades: o urologista, o dermatologista, o ginecologista, o infectologista e o generalista são exemplos de profissionais que estão treinados para esse diagnóstico.

É importante citar que nem sempre verrugas que surjam nas regiões das genitálias asseguram que o paciente está com HPV. As dúvidas devem ser sempre sanadas com especialistas da área da saúde. Outras doenças e também outras DST`s podem se manifestar como lesões verrucosas ou ulceradas nas regiões íntimas.

Já as lesões subclínicas, ou seja, as assintomáticas, são comumente diagnosticadas em exames laboratoriais preventivos, como o Papanicolau, a colposcopia, a peniscopia e anuscopia, e também por meio de biópsias para diferenciar lesões benignas de malignas. O acompanhamento com seu médico é de fundamental importância para elucidação diagnóstica e prevenção do câncer de colo de útero

O tratamento

O tratamento médico para remoção de verrugas em regiões anal e genital consiste, basicamente, na destruição das lesões clínicas. Independente à realização do tratamento, as lesões podem desaparecer, bem como aumentar em tamanho ou quantidade. O tratamento pode ser:

  • Químico ou cirúrgico;
  • Reforçando o sistema imunológico, através de complexo vitamínico ou boa alimentação;
  • Domiciliares (cremes dermatológicos autoaplicados) – como o imiquimod;
  • Ambulatoriais, aplicados por profissionais da saúde, como o ATA (ácido tricloroacético), a podofilina ou a eletrocauterização. Os dois últimos são descartados em casos de mulheres grávidas.

O cuidado, contudo, deve ser redobrado para pacientes soropositivos, uma vez que possuem limitações no sistema imunológico, em razão da síndrome de imunodeficiência adquirida. O tratamento é o mesmo, mas pacientes com HIV tendem a reagir de maneira mais ineficaz, e as lesões clínicas podem voltar a se manifestar, já que o vírus do HPV não é eliminado.

Prevenção é o remédio mais eficaz

A honestidade para com seu parceiro sexual é fundamental para que ambos tenham sucesso no tratamento contra o HPV. Quem se relaciona sexualmente com pacientes que foram diagnosticados com o vírus devem buscar ajuda médica.

Além da vacinação, o preservativo, tanto masculino quanto feminino, utilizado corretamente nas relações sexuais, previne quase que totalmente a transmissão do vírus HPV, exceto em regiões não abrangidas pelo material da camisinha, como a vulva, a região pubiana e a bolsa escrotal.

No entanto, seu uso se faz indispensável para a prevenção de outras DSTs, do HIV e também de gestações indesejadas. Como protege a vulva, a camisinha feminina acaba sendo mais eficaz na prevenção do HPV.

Outras doenças sexualmente transmissíveis que frequentemente podem surgir em consequência do não uso da camisinha são:

  • Sífilis: doença infecciosa provocada pela bactéria Treponema pallidum, que apresenta como sintomas iniciais pequenas feridas indolores nas genitálias. Em seu segundo estágio, pode provocar manchas em várias partes do corpo e queda de cabelos. Se não tratada, essa DST pode causar complicações graves como cegueira, paralisia, doença cerebral e problemas cardíacos. É altamente curável, com o uso de penicilina;
  • Clamídia: recorrentemente comum entre os jovens, alguns dos seus sintomas são dor ao urinar, aumento de corrimento vaginal, sangramento fora da fase de menstruação e dor durante o ato sexual. Se não tratada, pode levar à infertilidade. Em alguns casos, é totalmente assintomática;
  • Gonorreia: também é uma infecção causada por bactéria que pode atingir o colo do útero, o canal anal, a garganta e os olhos. Seus sintomas são parecidos aos da clamídia, e da mesma forma, pode surgir como uma doença assintomática;
  • Herpes genital: doença provocada por vírus, sem cura, mas com tratamento. São pequenas feridas que podem causar dor ou irritação, tratáveis com medicamentos específicos para o herpes. Porém, uma vez adquirido, o vírus permanece para sempre no organismo, podendo se manifestar em períodos de baixa imunidade ou estresse psicológico. Se alojam dentro dos nervos pélvicos e podem migrar para a pele e provocar lesões herpéticas na pele ou nos genitais, assim como em outras partes do corpo;
  • AIDS: consequência da transmissão e infecção pelo vírus do HIV. Quando não tratado com adequadamente, evoluiu para destruição das principais células do sistema imunológico chamados linfócitos. Não tem cura, mas com o uso do chamado coquetel, garante vida longa e confortável ao paciente, embora com algumas restrições.

O exame preventivo Papanicolau, ginecológico, é o mais comum para localizar lesões precursoras do câncer do colo de útero, ou seja, pode ajudar a identificar o vírus HPV e a prevenir o aparecimento de câncer de colo de útero. O Papanicolau tem como finalidade encontrar células anormais na região do colo do útero através do esfregaço em lâmina de vidro de raspado de diferentes regiões do colo de útero.

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